Olhando a cruz que eu levo habitualmente no pescoço, Mãe Silícia me interpelou um tanto ironicamente e me disse que a cruz de hoje é diferente da cruz de ontem.
Como sempre, tentei acompanhá-la e aprender da sua sabedoria acumulada dia a dia e ela me falou que há uma grande diferença entre ser pendurado em uma cruz e pendurar uma cruz no pescoço. E ainda mais, só devia pendurar uma cruz no pescoço quem estivesse disposto a ser pendurado em uma cruz.
Lembrei dos mártires. Santo Inácio, século segundo, escrevendo ansioso uma carta à Igreja em Roma, pedindo encarecidamente que não interferissem em seu martírio, que não lhe deixem escapar a oportunidade de se assemelhar pela morte violenta ao seu mestre.
Lembrei também dos descaminhos da Igreja, da aliança com o poder, quando em vez de levar a cruz optou por impor a cruz.
Católicos e protestantes fomos produtores de mártires não cristãos. Impusemos o martírio aos "heréticos" e aos não-cristãos em maior quantidade do que o havíamos recebido.
Na realidade, a cruz de hoje, pendurada nos nossos pescoços seria uma cruz de ouro pois somos mais adoradores de Mamom, como dizia Gandhi, do que de Jesus Cristo. Adoradores do capital, do lucro, do conforto, permitimos o sacrifício de vítimas humanas no seu altar e a cruz que carregamos é a própria ameaça de condenarmos os outros à mesma.
Há muito que esquecemos a receita de felicidade de Jesus e optamos pela estrada larga, em vez das estreitas veredas do compromisso com a justiça, com o amor e com a verdade.
A bem-aventurança da perseguição não faz mais parte da nossa confortável vida cotidiana. Não entendemos mais o significado das palavras "Felizes os perseguidos por causa da justiça porque deles é o reino dos céus". A cruz de ontem, sofríamos nós; a cruz de hoje, decidimos a quem entregar.
Mas talvez nem tudo esteja perdido. Encontramos, dispersos por toda a parte, desconhecidos cristãos que em diversos níveis assumem a cruz de ontem e oferecem a face ao sofrimento, à perseguição e ao martírio. Cristãos que participam de toda luta contra a discriminação, contra a exploração e contra todo o tipo de opressão. Em nome da justiça, em nome de Jesus.
Extraído do livro: Vila MaraVila de Marcos Monteiro

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