quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Novidades do Alemão


Nos últimos dias ouvimos (cristãos) falar sobre a tomada de posse, ocupação espiritual, marcação do território espiritual, entre outras babaquices que estão acontecendo no morro do Alemão no Rio.

Eu gostaria apenas de entender porque essa mudança se é espiritual mesmo, se deu com tantas mortes de inocentes e pessoas que nem sabem o porquê de estar nesse planeta. Pessoas que não conhecem um sentido apenas pra estar vivos. E foram mortas. Alguns corpos de inocentes, negros, etc. nem foram encontrados até hoje.

Talvez se o Jesus estivesse aqui ele faria algo diferente. Talvez ele optasse por anunciar o Reino de Deus. E não precisaria assumir um papel de "o transformador", "o cara da oração poderosa", "usar a unção da ocupação", usando imagens do BOPE (Que mata sem piedade) para falar que o BOPE é um exército de Deus na terra.

Tento entender porque os religiosos não optam pela mudança social, psicológica e espiritual em conjunto.

Depois que a "cagada" da polícia do Rio foi feita, agora falam que isso foi obra de Deus. Respondam-me: O tráfico acabou? Acabaram foi com os TRAFICANTES. E ainda portas se abriram para as milícias (Marcelo Freixo do Rio que o diga na explicação). Deus não seria tão tolo.

Deus mataria tantos inocentes e traficantes? Essa ocupação do BOPE foi obra de Deus? Conhecendo Deus, sei que Ele não assumiria essa postura. O povo religioso desse país precisa entender o conceito básico do evangelho. Precisa entender que as nossas armas não são carnais, mas poderosas em Deus para destruir fortalezas que se levantam contra o CONHECIMENTO de Deus.

Trabalhar a fonte do problema ninguém quer. Assumimos posturas contrárias ao cristianismo de prática de vida. E outra quando temos a oportunidade de mudar algo por conquistar posições no governo “quebramos a cara” (Magno Malta, Garotinho, etc. que o digam).
Estou cansado. Por isso a revolta. Assim como Jesus quebrou tudo no templo, queria poder fazer o mesmo hoje. A Igreja assume uma postura capitalista. Nossa cruz é de ouro. E o céu é pra quem pode pagar. Tenho vergonha de ser chamado evangélico por causa das práticas de pessoas que se corromperam.
Prefiro viver um cristianismo de prática de vida. Sem ser percebido por muitos. Mas que isso seja a causa de mudança da vida de algumas pessoas.

Precisamos voltar ao evangelho da partilha do pão. De suprir as reais necessidades alheias. De fazer o bem sem olhar a quem. Acima de ser “evangélico”, ser HUMANO. Independente do credo, da cor, da raça, do povo, língua ou nação.

Meu desabafo!
Winston Carneiro

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

A Cruz de Ontem e a Cruz de Hoje



Olhando a cruz que eu levo habitualmente no pescoço, Mãe Silícia me interpelou um tanto ironicamente e me disse que a cruz de hoje é diferente da cruz de ontem.

Como sempre, tentei acompanhá-la e aprender da sua sabedoria acumulada dia a dia e ela me falou que há uma grande diferença entre ser pendurado em uma cruz e pendurar uma cruz no pescoço. E ainda mais, só devia pendurar uma cruz no pescoço quem estivesse disposto a ser pendurado em uma cruz.

Lembrei dos mártires. Santo Inácio, século segundo, escrevendo ansioso uma carta à Igreja em Roma, pedindo encarecidamente que não interferissem em seu martírio, que não lhe deixem escapar a oportunidade de se assemelhar pela morte violenta ao seu mestre.

Lembrei também dos descaminhos da Igreja, da aliança com o poder, quando em vez de levar a cruz optou por impor a cruz.

Católicos e protestantes fomos produtores de mártires não cristãos. Impusemos o martírio aos "heréticos" e aos não-cristãos em maior quantidade do que o havíamos recebido.

Na realidade, a cruz de hoje, pendurada nos nossos pescoços seria uma cruz de ouro pois somos mais adoradores de Mamom, como dizia Gandhi, do que de Jesus Cristo. Adoradores do capital, do lucro, do conforto, permitimos o sacrifício de vítimas humanas no seu altar e a cruz que carregamos é a própria ameaça de condenarmos os outros à mesma.

Há muito que esquecemos a receita de felicidade de Jesus e optamos pela estrada larga, em vez das estreitas veredas do compromisso com a justiça, com o amor e com a verdade.

A bem-aventurança da perseguição não faz mais parte da nossa confortável vida cotidiana. Não entendemos mais o significado das palavras "Felizes os perseguidos por causa da justiça porque deles é o reino dos céus". A cruz de ontem, sofríamos nós; a cruz de hoje, decidimos a quem entregar.

Mas talvez nem tudo esteja perdido. Encontramos, dispersos por toda a parte, desconhecidos cristãos que em diversos níveis assumem a cruz de ontem e oferecem a face ao sofrimento, à perseguição e ao martírio. Cristãos que participam de toda luta contra a discriminação, contra a exploração e contra todo o tipo de opressão. Em nome da justiça, em nome de Jesus.


Extraído do livro: Vila MaraVila de Marcos Monteiro